De olho em 2024, quem determinará o futuro da saúde suplementar?

O sistema de saúde suplementar brasileiro enfrenta a pior crise desde o início de sua regulação. Apesar do número de clientes observado em 2023 ser o maior já registrado nos últimos 10 anos, com cerca de 50,55 milhões, e ultrapassando a marca de 50,53 milhões de beneficiários registrados em 2014, as operadoras médicas seguem acumulando prejuízo operacional.

Nos 6 primeiros meses de 2023, as operadoras somaram quase R$135 bilhões em receitas e R$116,4 bilhões em custos assistenciais, resultando numa sinistralidade de mais de 86%. Em 2014, com a mesma quantidade de clientes, a receita acumulada em 12 meses não chegou a R$128 bilhões e o custo assistencial ficou em R$106 bilhões, com sinistralidade de 83%. Ou seja, o custo mensal da assistência prestada a um beneficiário em 2014 era em torno de R$176 enquanto em 2023 é de R$384, o que representa um aumento de 119%. No mesmo período, o IPCA acumulado não chegou a 65%.

Esse aumento de custo, que chamamos de inflação nos planos de saúde, é decorrente de uma combinação entre o aumento do preço dos serviços e o aumento da taxa de utilização dos planos de saúde, que ocorre também em razão do envelhecimento da população e pela incorporação de novos procedimentos, medicamentos e novas tecnologias ao rol de serviços cobertos pelos planos de saúde.

Como consequência, o preço médio dos planos de saúde também saiu de R$ 211 em 2014 para R$ 445 em 2023, que representa um aumento de 111%. Interessante destacar que 2014 também foi o pior resultado das operadoras na última década até o ano de 2022, e marcou o ponto de decrescimento do número de beneficiários de planos de saúde, que se estendeu até 2020, quando o número voltou a crescer. A redução do número de vidas pode ser explicada pela crise econômica no Brasil iniciada em 2014, e mais fortemente percebida nos anos seguintes.

Embora o número de clientes tenha voltado a crescer, e alcançado seu recorde em 2023, as operadoras médicas tiveram prejuízo operacional acumulado em R$4,3 bilhões no primeiro semestre de 2023. Importante destacar que todas as modalidades de operadoras médicas registraram resultado operacional negativo nesse mesmo período, embora o resultado líquido tenha voltado a ficar positivo, ainda que muito baixo.

Isto ocorre porque sobre o resultado operacional, que é a diferença entre receita e a soma de custo operacional, despesas comerciais e administrativas, é acrescido o resultado financeiro e patrimonial das operadoras, e então são deduzidos os impostos para chegar ao resultado líquido. O que “segurou” o mercado foi o resultado financeiro positivo, proveniente de aplicações financeiras no montante de R$ 105,7 bilhões, que geraram rendimento de quase R$6 bilhões no período de janeiro a junho de 2023.

Do total de aplicações mantidas, pouco mais de 55% são ativos garantidores de provisões técnicas, e esses dados confirmam que a manutenção de ativos garantidores exigida pela ANS tem sustentado o setor nesse período de crise. A elevação do volume de receitas e despesas gera uma necessidade cada vez de maior de provisionamento técnico, porém é preciso considerar que o prejuízo operacional inviabiliza que as operadoras aportem novos recursos provenientes da operação em suas reservas financeiras, e é muito provável que as reservas sejam consumidas em médio prazo, reduzindo seus rendimentos, especialmente nas reservas livres.

Com cada vez mais beneficiários e menor margem operacional, muitas operadoras não serão capazes de honrar seus compromissos financeiros no próximo ano, e as operadoras que conseguirem administrar o maior volume de beneficiários sem grande impacto no custo marginal tenderão a absorver esses contratos das operadoras que encerrarem suas operações. Mas isso não significa que somente as pequenas e médias operadoras estejam em risco. Aliás, foi o resultado das operadoras de pequeno e médio porte que “seguraram” o resultado líquido positivo do setor no primeiro semestre de 2023.

Frente ao aumento desenfreado de custos, as operadoras buscam aumentar suas receitas para equilibrar o prejuízo, e o acesso aos planos de saúde fica cada vez mais difícil para a população. E as empresas, que são as maiores contratantes, concentrando mais de 70% dos beneficiários, já não podem absorver os reajustes.

É preciso dialogar com todos os participantes do setor para buscarmos soluções que viabilizem a sustentabilidade da saúde suplementar, mas o que vemos mais frequentemente são integrantes dos mesmos grupos se reunindo sem a participação dos outros grupos. Operadoras, hospitais, empresários, laboratórios, indústria farmacêutica e demais fornecedores precisam se reunir e assumir a direção do sistema, que ainda é muito reativo à regulamentação e pouco colaborativo, apesar de muito resiliente.

Italoema Sanglard, Gerente da Funcional HealthTech. É especialista em saúde suplementar, atuando há mais de 16 anos com consultoria nas principais operadoras de saúde do Brasil. É formada em Ciências Atuariais pela UFMG e possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV.

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