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Por que ainda não temos uma healthtech unicórnio no Brasil?

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TQ SÃO PAULO 28.11.2018 TERA Cobertura da AULA PRESENCIAL da Digital Product Week na sede da TERA, no escritório da Wework. FOTO TIAGO QUEIROZ/TERA

Atualmente, o Brasil conta com 27 unicórnios — startups com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão — e o número de empresas com este título não para de crescer. Nesse cenário todo, chama atenção o fato de não haver, ainda, nenhum unicórnio brasileiro que atue em saúde, mesmo sendo este um dos principais setores da economia brasileira. 

Toda startup surge com um propósito: resolver problemas latentes a partir de soluções tecnológicas em busca da simplificação de processos obsoletos. Todos nós sabemos que o setor de saúde clama por soluções eficientes e tecnológicas. Então, por que as healthtechs ainda não ganharam tração no Brasil?

Para compreender o que vem acontecendo no ecossistema das healthtechs, uma comparação com o setor financeiro é bem-vinda. Ambos são profundamente regulados e recheados de complexidades, contudo, as fintechs dominam a lista de unicórnios e o ecossistema, no geral, é um dos mais maduros no que tange tecnologia e inovação. Tanto que o Brasil é mundialmente reconhecido por ser celeiro de fintechs, mas ainda não se consolidou como uma potência em healthtechs. 

Por exemplo, provavelmente você já ouviu falar no “Open Health”, proposta pela qual o paciente possui todo o seu histórico de saúde em uma única plataforma que seja acessível a qualquer médico ou instituição. Algo muito parecido acontece no setor financeiro através do recém-criado Open Banking, que possibilita a troca do histórico financeiro do cliente entre diferentes bancos, de acordo com o desejo do consumidor. 

Agora, imagine o funcionamento do Open Banking, em um cenário no qual grande parte das transações financeiras são realizadas em notas de dinheiro, cheques, e em que os sistemas de diferentes bancos não conversem entre si, ou seja, sem interoperabilidade. 

Temos que concordar que seria bastante difícil conceber a existência do Open Banking e outras praticidades como: efetuar pagamentos de maneira digital, realizar transferências sem taxas, além de possuir acesso a crédito sem ter que ir à agência bancária. Sem contar nos diversos benefícios sob a ótica de gestão que essas inovações levaram às instituições financeiras.

Pois bem. Este é apenas um dos exemplos que retrata o momento da saúde no Brasil. Atualmente, grande parte dos registros clínicos ainda são feitos no papel: como o prontuário do paciente, solicitação de exames, atestados, receita médica, dentre outros documentos que circulam pelas gavetas e prateleiras das clínicas e hospitais. Hoje em dia, alguns destes documentos já nascem digitais, contudo, são armazenados nos sistemas dos hospitais, que possuem um baixo nível de interoperabilidade.

Por este raciocínio, fica mais clara a razão pela qual ainda estamos distantes de um ecossistema integrado e multidirecional em saúde, que é pré-requisito para a estruturação tecnológica do setor.

Apesar disso, vemos que esta realidade está mudando. Cada vez mais, as healthtechs têm ganhado relevância e maturidade, à medida que diminuem as ineficiências do setor. Desde aquelas que propõem novos modelos de remuneração, incentivando o value based healthcare (atenção à saúde baseada em valor) e foco na atenção primária, àquelas especializadas na digitalização de atendimentos e documentos clínicos, como as empresas de telemedicina e de receita digital. Tudo isso em busca de um ecossistema mais digitalizado e menos burocrático, desafiando o status quo. 

Com certeza, não sou o único a enxergar tal movimento. De 2018 para 2020, o Brasil viu mais do que dobrar o número de healthtechs em operação. Além disso, o ano de 2021 registrou o maior número de deals e valor aportado em heathtechs, com aproximadamente R$ 1,75 bilhão investidos, segundo a Distrito, plataforma de inovação aberta e transformação digital. 

Fica claro, portanto, que o crescimento das healthtechs está apenas começando. O setor é gigante e repleto de problemas, criando um vácuo para soluções que vêm sendo preenchidas pelas heathtechs atuais, que diariamente lutam para romper com o tradicionalismo do setor de saúde.

Mas aqui cabe um alerta. O vilão ainda é o papel e isso deixa ainda mais claro que somente com a transformação digital, as healthtechs brasileiras terão pista livre para figurar junto aos outros 27 unicórnios.

Muitos alegam que é necessário tempo para que o ecossistema amadureça. Contudo, mais do que tempo, é necessário muito empenho e intencionalidade para concretizar mudanças relevantes na saúde. Me anima como cresce, cada vez mais, o número de pessoas – empreendedores, investidores e executivos – que pensam dessa forma e dedicam suas horas para tornar “a promessa das healthtechs” em realidade e a saúde mais acessível e descomplicada para todos.

*Gianluca Xande é empreendedor em saúde, first employee na Mevo e bacharel em administração de empresas pela FGV.

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