Ambiente de saúde humanizado fortalece relação com paciente, diz médico

A humanização da saúde é uma pauta cada vez mais presente. Hoje, essa preocupação vai além do atendimento, com as unidades investindo em ambientes projetados para aproximar profissionais e pacientes, criando vínculo e auxiliando na recuperação. O médico Leonardo de Deus Silva, neurologista do Vera Cruz Hospital, de Campinas, no interior de São Paulo, explica que a humanização dos espaços de saúde surgiu por uma necessidade de se diminuir o distanciamento entre o paciente e a estrutura à qual ele está recorrendo para realizar o tratamento.

“A condição de doente torna a pessoa muito frágil, o que gera muita ansiedade até mesmo por conta do desconhecido. A partir do momento em que a estrutura hospitalar é acolhedora, no sentido de que oferece uma condição de bem-estar mesmo numa situação adversa, que seria a doença, isso deixa o paciente mais propenso a ter uma melhor recuperação, pois ele se sente mais confiante e positivo. Então, a humanização, na verdade, tenta tirar a impessoalidade do tratamento médico e tornar o paciente mais próximo dos profissionais que estão o atendendo e da estrutura hospitalar”, explica.

Baseada em estudos neurocientíficos, que analisam os impactos do ambiente físico no comportamento humano, a neuroarquitetura permite criar esses espaços acolhedores, que ajudam a prevenir doenças, amenizam os impactos dos processos de tratamento e, ao serem mais funcionais, proporcionam maior independência e conforto aos pacientes. “São estruturas que devem oferecer um ambiente que seja o mais parecido com o que o paciente está acostumado a frequentar habitualmente. Então, isso tem a ver muito com as cores, com a luminosidade do local, e até com coisas triviais, como sofás e camas, para poder tornar a experiência do paciente mais próxima daquilo que ele entende como sendo boa, positiva”, analisa o neurologista do Vera Cruz.

“Quando são oferecidos ambientes claros, alegres, com cores representativas, essa condição torna a experiência do paciente melhor e o fortalece, criando um vínculo, porque esse bem-estar abre portas dentro da consciência para que a pessoa se sinta melhor, liberando endorfina, substâncias no organismo que a ajudam a enfrentar a doença e ter um desfecho melhor no resultado do seu tratamento”, reforça o médico.

O arquitero e urbanista Lorí Crízel, especialista em neuroarquitetura, destaca a importância do desenho adotado nos projetos dessas áreas médicas. “Quando trabalhamos no desenvolvimento de espaços dedicados à saúde, entramos em um conceito chamado design salutogênico, que interpreta o ambiente como um dos elementos promotores do processo de cura e é a interseção entre arquitetura, neurociência e psicologia com foco no apoio à saúde e ao bem-estar. O ambiente é programado e projetado pensando em inúmeras condicionantes para a melhor recuperação do paciente, que é uma pessoa em estado de vulnerabilidade”, afirma.

Essa arquitetura, completa Crízel, afeta positivamente também um segundo público, que está em estado de vulnerabilidade: familiares e amigos que acompanham o paciente. “Para completar, temos o corpo clínico, de médicos e enfermeiros, além do corpo administrativo, que faz o hospital funcionar. Todas essas pessoas precisam ter uma qualidade de convívio com esse espaço para que também não adoeçam enquanto cumprem as suas funções”, destaca Crízel, que é presidente da ANFA (Academy of Neuroscience for Architecture) no Brasil e autor do primeiro livro do país sobre neurociência aplicada à arquitetura, design e iluminação.

Ao analisar as exigências e o panorama do setor atualmente, a arquiteta Denise Moraes, diretora de criação e conceito da AKMX, ressalta como os projetos estão ajudando as unidades de saúde a ganhar um perfil humanizado e a fidelizar os pacientes, que passam a procurar esses locais com maior frequência para realizar exames e outros procedimentos médicos. “Esse mercado vem sendo transformado por meio da neuroarquitetura. Os ambientes hospitalares agora não são apenas lugares para pacientes serem tratados com urgência e para investigação de doenças. Esses locais se tornaram espaços onde estão sendo realizados tratamentos preventivos e rotineiros com maneiras mais amigáveis e acolhedoras”, destaca.

Denise lembra que a neuroarquitetura não está mudando apenas os leitos e centros cirúrgicos onde os tratamentos são realizados, provocando também uma revolução em todos os ambientes hospitalares e beneficiando os corpos clínicos. “Esse novo conceito arquitetônico passa a ser percebido nos quartos de internação, nas áreas de medicação e em todo o local por onde o paciente circula. Hoje existe uma dedicação maior à necessidade de ampliar esse olhar humanizado para os profissionais da saúde, que enfrentam jornadas longas, grande carga de trabalho e, consequentemente, alto nível de estresse”, analisa a diretora da AKMX.

Ao comentar sobre a evolução dos espaços das unidades de saúde como um todo, Crízel enaltece a importância da aplicação do design biofílico, usado na neuroarquitetura com o objetivo de elevar o contato dos pacientes com elementos da natureza, como água, plantas, animais e ventilação e luz naturais, estimulando a criatividade e a sensação de pertencimento ao local, a conexão com a “vida” e reduzindo o estresse. E o especialista lembra que esse tipo de design também pode ser utilizado de forma indireta, em ambientes onde não é possível usar a luz e o ar naturais. “Em locais como centros cirúrgicos, por exemplo, onde é preciso ser feito isolamento dos pacientes, não podemos ter luzes e vegetação naturais. Nessa situação, usamos outras técnicas, materiais e iluminação, recursos para que a gente se aproxime da condição mais parecida possível com a que teríamos se usássemos elementos da natureza”, completa.

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