Sofrimento psíquico tem forte impacto no trabalho das pessoas, alerta psicóloga

O Brasil é o país com maior proporção de pessoas ansiosas no mundo: 9,3% da população, segundo a última estimativa global de transtornos mentais feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, é o segundo das Américas com maior predominância da depressão. Ainda assim, somente 5,1% dos brasileiros fazem tratamento com psicoterapia, uma indicação geralmente adotada como terapia primária para lidar com questões de saúde mental. Cerca de 19% chegaram a se consultar em algum momento com um psicólogo ou um psiquiatra no decorrer do último ano, porém a grande maioria não passou de cinco encontros.

É o que mostram os resultados de uma nova pesquisa feita pelo Instituto Cactus, entidade filantrópica ligada à promoção do bem-estar psíquico, junto à AtlasIntel, empresa especializada em pesquisas e dados. As instituições criaram o Índice Instituto Cactus-Atlas de Saúde Mental (iCASM), novo indicador para monitorar o tema no país a cada seis meses.

Para a psicóloga Ana Cristina Limongi-França, conselheira e uma das fundadoras da Associação Brasileira de Qualidade de Vida no Trabalho (ABQV), organização sem fins lucrativos fundada em 1995 com objetivo de estimular ações e programas de qualidade de vida em ambientes corporativos, o sofrimento psíquico dentro e fora das empresas tem forte impacto na vida das pessoas e nas próprias organizações.

Segundo ela, o sofrimento psíquico pode ser definido como estado interno de insatisfação, dor, revolta, tristeza, depressão e outras sensações e sentimentos de mal-estar pessoal. “Essas sensações e transtornos têm diferentes intensidades e formas de manifestação, gerando desdobramentos negativos nos relacionamentos da pessoa em sofrimento. Segundo o psiquiatra e psicanalista francês Christophe Dejours e estudiosos desse campo, o sofrimento no trabalho pode ser expresso em sofrimento criativo e sofrimento desagregador”, observa Ana Cristina, que é especialista em gestão da qualidade de vida no trabalho.

“Essas duas formas de sofrimento têm impactos totalmente diferentes na vida da pessoa com relação ao seu trabalho, responsabilidades pessoais e propósito de vida. O sofrimento criativo é o resultado de um conflito ou situação de ameaça ou limitação que é enfrentado, superado e gera um aprendizado aplicado em novas situações do estilo de vida, relacionamento e autoestima. Já o sofrimento desagregador é o processo psíquico que gera agravos à saúde mental, acompanhados de alterações psicossomáticas e dificuldades de atividades da vida diária”, explica a psicóloga.

De acordo com um estudo de mestrado sobre manifestações de dores e sensações psicossomáticas em uma indústria de motores a partir da pergunta “o que você faz quando sente dor no trabalho?”, as respostas foram: “procuro o serviço de saúde (50%); faço uso da automedicação (17%); converso com alguém — da rede pessoal (5%); faço lamentações (5%); faço outras atividades (4%) e suporto a dor (17%)”. No caso do ambulatório médico da empresa, se a pessoa — no caso, operários e funcionários administrativos — considerava a sua dor pouco importante, procurava o enfermeiro e, se a dor fosse importante, procurava o médico.

O dado preocupante, segundo Ana Cristina, é que muitos adotam a automedicação. “Trata-se de uma prática arraigada e amplamente difundida, usada, compartilhada e multiplicada no dia a dia dos brasileiros, em todos os momentos e interações. E os processos de gestão devem enfrentar isso com mais informações e orientações preventivas sobre a importância das sinalizações de dor e do mal-estar para o diagnóstico preciso e qualificado, pois mascarar os sintomas, além de poder gerar reações adversas lesivas, pode levar até ao óbito. A ciência e a competência da consulta ao profissional de saúde é a melhor conduta sempre”, finaliza.

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