O que o escândalo Theranos nos ensina sobre saúde, tecnologia e inovação?

A frase “Fake it until you make it” (finja até conseguir seu objetivo) é quase um mantra e parte de uma cultura no Vale do Silício, uma espécie de estímulo usado entre muitas empresas tecnológicas de sucesso. É a arte de vender o futuro, uma combinação tácita entre jovens empreendedores e capitalistas de risco na corrida por criar e encontrar unicórnios, as atraentes empresas de inovação avaliadas acima de US$ 1 bilhão e com potencial de criar bilionários antes de abrir capital  

O mantra emudeceu com o escandaloso caso Theranos. A jovem Elizabeth Holmes tinha abandonado a universidade de Stanford aos 19 anos para fundar a startup, prometendo reinventar o processo dos laboratórios clínicos a partir da criação de um sistema de testes de sangue capaz de descobrir doenças com apenas uma picada no dedo. Logo transformou-se em projeto que convenceu o sofisticado mercado de capitais.  

Grandes investidores e personalidades como os magnatas Rupert Murdoch e Carlos Slim, o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, e o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, foram alguns dos que apostaram na startup de biotecnologia e na bela jovem que a mídia começou a comparar a Steve Jobs. Em 2009 a Theranos já comercializava seus produtos na Walgreens, a maior rede de farmácias dos EUA, e em 2016 fazia parte do seleto grupo de unicórnios, sendo avaliada em US$ 9 bilhões. 

Foi quando o The Wall Street Journal revelou que os diagnósticos não eram feitos pelo sistema inventado por Holmes, mas com máquinas da Siemens, o sólido e velho conglomerado alemão, com que pretendia concorrer. Com apenas 30 anos e uma fortuna de mais de US$ 4,5 bilhões, Holmes saiu da lista de bilionários da Forbes para os tribunais, onde, em janeiro, foi condenada por fraude, entre outros crimes, e corre o risco de passar 20 anos na prisão. A Justiça da Califórnia acusa-a, junto com seu ex-sócio e ex-namorado, Ramesh Balwani, de enganar investidores, médicos e pacientes.  

O escândalo da Theranos levantou discussões sobre os investimentos de risco, a rápida ascensão de unicórnios e a essa cultura questionável entre jovens empreendedores, mas o mais grave são as consequências éticas e os danos que a ânsia da inovação pode causar quando este tipo de especulação acontece em uma área tão sensível como a da saúde.  

Os investidores pensam tanto em inovações milagrosas, ou andam tão em busca de soluções disruptivas, que são capazes de apostar tudo na promessa de uma empresa recém-criada que diz ser capaz de diagnosticar 150 exames com apenas uma gota de sangue. E todos sabemos que o processo científico é muito mais complexo.  

A pergunta fundamental é: como investidores experientes caíram em uma história como a da Theranos? Aparentemente não foram feitas perguntas básicas, como: “o dinheiro será usado em Pesquisa e Desenvolvimento?”, “há patente?” ou “onde está o plano de metas?”. O investidor precisa avaliar melhor os riscos e encontrar modelos de precaução para não entrar no jogo da especulação sem validar os processos e as hipóteses. E, neste caso, a fraude permeou o caso em vários momentos sem que os investidores percebessem, de tão ávidos que estavam em ganhar dinheiro.  

O mais triste de toda essa história é como, ao olharmos para a área de tecnologia na saúde, o ser humano é capaz de investir bilhões em um sonho, mas o mesmo às vezes não ocorre com um projeto muito mais palpável. Não há dúvidas de que é possível revolucionar o sistema de saúde com a tecnologia que já existe hoje.  

Um exemplo: melhorar a jornada do paciente no atendimento de hospitais. Imagine um plano de saúde que ofereça a seus associados um wearable (aparelho “vestível”, como um relógio ou pulseira) que meça os seus sinais vitais. Na ponta da caneta, esse olhar com foco na saúde, e não na doença, reduz custos e salva vidas. Não precisa reinventar a roda.   

Além dos wearables, há oportunidades na internet das coisas (IoT), telemedicina, medical devices e inteligência artificial (AI) e Big Data. Segundo dados da terceira edição do Distrito Healthtech Report com o apoio da consultoria KPMG, já há 41 HealthTechs avaliadas em mais de US$ 1 bilhão pelo mundo, a maioria nos Estados Unidos e na China. Desde 2015, já foram investidos US$ 46,5 bilhões em HealthTechs pelo mundo.  

No Brasil, sétimo maior mercado de saúde do mundo, com mais de US$ 42 bilhões gastos anualmente em saúde privada, há 542 HealthTechs, metade delas com menos de cinco anos de operação e em fase de desenvolvimento. Mas o volume de investimentos recebidos tem sido significativo. Segundo o mesmo levantamento, desde 2014 estas startups receberam US$ 430 milhões, ao longo de 189 rodadas de venture capital.  

As principais áreas de investimento no Brasil são Gestão (25,1%), Acesso à Informação (17,3%), Marketplace (13,7%) e Farmácia e Diagnóstico (10,5%). Juntas, as HealthTechs empregam quase 10 mil pessoas no país, em uma curva crescente e com grande potencial. O setor de Healthtech, aliás, foi o segundo setor de tecnologia que mais cresceu na América Latina, de acordo com o “Inside Latin America’s Breakout Year in Tech” publicado pela LAVCA.  

Obviamente, a iniciativa disruptiva tem que existir, mas ela não pode estar atrelada ao ganho financeiro, muito menos quando o negócio envolve a saúde das pessoas. Nos documentos do processo contra a Theranos, os promotores estimam que dezenas de milhares de pacientes podem ter recebido tratamentos e diagnósticos desnecessários ou prejudiciais, e entre os testemunhos há pacientes que foram diagnosticados com HIV erroneamente.  

Até onde as empresas e startups podem ir sem realmente demonstrarem evidências concretas de sua evolução? Se por um lado a propriedade intelectual deve ser protegida, de outro temos novas tecnologias que ainda não comprovaram seu verdadeiro potencial – e é neste ponto que o risco passa de um frio na barriga para o inalcançável (ou o crime, no caso Theranos). Muito ainda deve ser testado, aprendido e, por fim validado, mas não podemos colocar o sonho antes do processo, especialmente quando o foco é a saúde.  

Augusto de Angelis, diretor de Vendas e Marketing da CTC, empresa brasileira de serviços de tecnologia. 

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