Comunicação Não-Violenta e as relações interpessoais

A Comunicação Não-Violenta (CNV), idealizada por Marshall Rosenberg na década de 1960, propõe uma forma de comunicação baseada no respeito mútuo e em soluções que podem beneficiar todas as relações interpessoais. Em um mundo marcado por constantes mudanças, a CNV nunca foi tão essencial para construir relações saudáveis, especialmente quando enfrentamos desafios de convivência e diálogo. A dificuldade em nos comunicarmos não é nova; é um sintoma que reflete problemas mais profundos nas interações humanas, e isso se manifesta claramente nas relações familiares e dentro das empresas.

A CNV pode ser explicada por meio de quatro pilares principais, que orientam as interlocuções mais eficazes. O primeiro pilar é a distinção entre observação e juízo de valor, que propõe a separação entre o que realmente aconteceu e as interpretações subjetivas que fazemos dos fatos. O segundo pilar é a distinção entre sentimentos e pensamentos, incentivando uma clareza maior sobre o que sentimos em determinadas situações, sem confundir essas emoções com julgamentos. O terceiro pilar é a distinção entre necessidades e estratégias, que busca identificar as necessidades que estão por trás dos sentimentos, facilitando a criação de soluções mais eficientes. Por fim, o quarto pilar trata da distinção entre pedidos e exigências, promovendo a formulação de solicitações de maneira que haja abertura para um diálogo construtivo, evitando imposições.

Estudos afirmam que o uso da CNV no contexto familiar pode transformar a forma como pais e filhos interagem, promovendo uma educação que valoriza as diferenças e as vê como complementares, em vez de ameaças. Crianças que crescem em um ambiente de diálogo e respeito, onde limites são estabelecidos de forma clara e empática, têm mais chances de desenvolver habilidades interpessoais saudáveis. Conforme amadurecem, elas passam a ser mais responsáveis por suas ações, e isso é fundamental tanto na escola quanto no ambiente familiar. Crianças que não aprendem sobre comunicação e limites crescem e reproduzem essas lacunas no ambiente escolar e profissional na fase adulta. Já na adolescência, o uso da CNV ajuda a criar um ambiente de confiança, permitindo que os jovens explorem novas experiências, enquanto mantêm um apoio sólido da família e de uma rede de cuidados ampliada.

No ambiente corporativo, o impacto da CNV é realmente é transformador. Atualmente, até quatro gerações coexistem no mercado de trabalho: baby boomers, X, Y e Z. Cada uma dessas gerações tem experiências, expectativas e estilos de comunicação diferentes. O que funciona para os baby boomers, por exemplo, pode não fazer sentido para a geração Z, exigindo novas formas de interação. Isso também se reflete nos modelos de gestão: sistemas hierárquicos rígidos e o trabalho presencial obrigatório vêm sendo questionados pelos mais jovens, que cada vez mais exigem autonomia e flexibilidade para atingirem o melhor de seus potenciais e criatividade. Neste cenário, a CNV oferece uma ferramenta fundamental para preencher essa lacuna.

A prática da escuta ativa e da comunicação respeitosa no mundo corporativo permite que as equipes resolvam conflitos de forma mais eficaz e fortaleçam a confiança mútua. Não se trata apenas do que é dito, mas também do aspecto subjetivo. Ignorar a importância do diálogo aberto pode levar à deterioração das relações profissionais e à queda na produtividade. Valorizar as conversas respeitosas, ajuda a criar uma cultura de colaboração e engajamento.

Na perspectiva psicanalítica, quem está em paz consigo mesmo e ouve seus próprios sentimentos está mais preparado para escutar o outro de maneira efetiva. Isso é essencial para liderar pelo exemplo, criando um ambiente onde todos se sintam ouvidos e respeitados. Parafraseando o poeta Alberto Caeiro: “Não é suficiente ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso que haja silêncio dentro da alma”. Esse silêncio interior permite a escuta ativa, fundamental para o sucesso das relações interpessoais.

A prática da CNV, portanto, deve ser incentivada por pais, educadores e líderes, para que os indivíduos estejam preparados para se comunicar de maneira mais empática e assertiva. No ambiente de trabalho, essa prática pode evitar conflitos desnecessários e promover um clima organizacional mais saudável.

Adotar a CNV em nossas interações diárias transforma a maneira como nos relacionamos com os outros e contribui para um ambiente mais harmonioso e colaborativo. Quando nos esforçamos para ouvir e entender o outro, criamos espaços onde todos se sentem valorizados e respeitados, o que favorece não só o crescimento pessoal, mas também o fortalecimento das comunidades e organizações em que estamos inseridos.

Denise dos Santos, psicanalista. Tem especialização em clínica Lacaniana pelo Instituto Espe. Bacharel em Secretariado Executivo Bilíngue e Especialista em técnicas para cuidados integrativos pela Unifesp.

Related posts

Multinacional espanhola de reabilitação cognitiva chega ao Brasil

Instituto VOAR divulga balanço do programa de saúde bucal que impactou mais de 3,5 mil pessoas no litoral norte da Bahia

DHL Group adquire a CRYOPDP da Cryoport para fortalecer logística no mercado de saúde