sexta-feira, julho 19, 2024
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Open health: saúde acessível depende de dados qualificados

por Lais Fonseca e Bruno Oliveira Cardelino
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O que a diminuição nos desperdícios de exames e a valorização da saúde preventiva têm em comum? A palavra é: open health. Essa conexão não é óbvia, porém, a centralização de todos os dados e informações do paciente poderá nos habilitar para um novo momento para o setor de saúde,  sem barreiras.  O setor de saúde atravessa um momento ímpar no que tange ao tratamento e utilização dos dados e sua relação com essas novas tecnologias. 

Historicamente o setor cresceu de maneira fragmentada, e tal fragmentação tem gerado enorme dificuldade na consolidação pela qual o setor atravessa. Diante deste cenário a interoperabilidade das informações dentre os diversos pontos de atenção se faz essencial. Para contextualizar, olhemos para o cenário de solicitação de exames no Brasil. 

O Mapa Assistencial da Saúde 2021, da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aponta o notório crescimento na indicação de exames por parte dos profissionais de saúde, de 22% em dois anos, entre 2016 e 2017. Além do fato que até 30% dos exames realizados nem chegaram a ser avaliados. 

Essa questão, aliás, foi pano de fundo na discussão de healthtechs durante evento realizado recentemente na Harvard Business School, num encontro com mais de 250 líderes e estudantes. Assim, as empresas estão cientes do enorme desafio que encontram pela frente para a transformação digital do setor. A maior dúvida, no entanto, está na escalabilidade das soluções que colocam o paciente no centro da atenção, ponto alto e mais destacado por todos os painelistas em Harvard. 

Dados qualificados no open health

Diante desse cenário e devido ao movimento iniciado em direção ao open health, os players do setor de saúde precisam acabar com a fragmentação histórica para trabalharem juntos em estratégias comuns a todo o mercado.  No entanto, o caminho será   iniciado através de ações nos sistemas locais. Para isso, será necessário:

1) Transformar o serviço de saúde, tornando-o cada vez mais digital, e para isso acontecer é essencial trazer informações e quaisquer dados disponíveis para algum sistema/repositório ou data lake. 

2) Promover a integração desses sistemas por meio da criação de um hub que propicie a interoperabilidade entre eles, ou seja, habilitá-los de tal forma que os sistemas, se “conversem” e troquem informações. Após esse importante passo, chega o momento de nos debruçarmos sobre os dados. Com esse direcionamento, é importante destacar que não só temos um desafio tecnológico, mas principalmente um enorme gap de cultura organizacional orientada por dados.

De fato, a eficiência e o valor estão nos dados, porém não basta ser qualquer dado. Temos que tratá-los e qualificá-los, e isso significa habilitá-los para que possam ser utilizados para gerar informações relevantes e confiáveis. Assim, temos que fortalecer a ideia de que pior que não ter dados, é termos dados ruins, pois podem nos levar às direções erradas, e isso pode ser um atraso ainda maior para o setor. Diante disso, fica claro a necessidade de uma boa governança e proteção destes dados sensíveis.

Investimentos em alta

Diversas iniciativas vêm sendo testadas no Brasil nessa direção. Por exemplo, o sistema público, por meio da “Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020-2028 – ESD28”, deixa claro a urgência dessa transformação, bem como seus benefícios. O estudo mostra a necessidade de se construir um movimento colaborativo entre todos os participantes do setor de saúde. 

Na iniciativa privada também vemos movimentos bem claros: grandes empresas do setor vêm incorporando tecnologia em seu ecossistema, e diversas outras ações têm sido feitas em parcerias com as empresas techs. Isso se torna evidente quando vemos o crescimento no número de startups de saúde no Brasil: entre 2019 e 2022, houve um aumento de 16,11%, segundo pesquisa da Liga Ventures e a PwC Brasil. 

Uma publicação da Distrito, aliás, corrobora com esses dados: apenas em 2021 foram investidos US$ 530 milhões em healthtechs, valor muito maior na comparação com os US$ 127,8 milhões investidos em 2020. Além disso, o número de empresas saltou de 248 em 2018 para 1.002 em 2021.

Resultados tangíveis

O benefício entre as empresas de saúde consolidadas e as healthtechs ficou claro na pandemia. Diversas soluções foram criadas em tempos recordes, como respiradores artificiais impressos em impressoras 3D até a gestão massiva de dados que ajudaram a conduzir enormes e variados estudos clínicos. Tudo isso possibilitou ao setor compreender a Covid-19 com profundidade e em tempo recorde na história da medicina. 

Movimentos estratégicos como esses para patamares nunca vistos e pensados: seremos capazes de entregar saúde de melhor qualidade, mais individualizada e com menores custos, valorizando sobretudo a saúde preventiva. Além disso, teremos mais qualidade nas informações de prontuários, que estão evoluindo e se tornando mais amigáveis para os profissionais de saúde, facilitando na estruturação dos dados dos pacientes, tornando-os centralizados e mais acessíveis. Desta forma , poderemos alinhar os tratamentos de doenças crônicas com muito mais assertividade, mesmo através de diferentes pontos de atenção, por exemplo.

Outra tendência, se seguirmos esse direcionamento, está na diminuição de desperdícios como exames repetidos, ou intervenções, uma vez que as informações serão mais transparentes, profundas e analíticas. Para que tudo isso aconteça, contudo, é essencial que todos os players de saúde sejam capazes de gerenciar seus dados de forma estratégica, e esse investimento cultural e tecnológico gerará um enorme valor para todo o setor. 

*Laís Fonseca é CEO e cofundadora da healthtech QBem, que usa engenharia e inteligência de dados para gerar melhorias para o sistema de saúde.

* Bruno Oliveira Cardelino é diretor médico da QBem.

Jackson Barros é strategic business development manager da Amazon Web Service (AWS).

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