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Desafios inerentes ao desenvolvimento de projetos e estudos científicos em saúde digital e tecnologias móveis

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Os avanços da ciência e os resultados promissores de produtos e serviços em saúde motivaram os profissionais e pesquisadores a estudar, planejar, desenvolver, implantar e, sobretudo, avaliar o uso eficaz e significativo das tecnologias. De fato, a comunidade científica apresenta acervo expressivo de estudos e intervenções sobre o uso de recursos tecnológicos na área de saúde, porém ainda observa-se pouco ou nenhum critério e rigor científico, especialmente nas fases de validação, considerando-se, inclusive, a necessidade de obter amostras significativas. Isto é, para criar e utilizar plenamente o potencial das tecnologias, etapas relevantes necessitam ser cumpridas de forma prudente e responsável, amparadas por métodos científicos.

Compreende-se que os dados de estudos tecnológicos, provenientes de intervenções aplicadas, devem ser baseados em evidências científicas rigorosas, pois são utilizados para apoiar a prática clínica, a qualificação do cuidado e a tomada de decisão na gestão de saúde do paciente. É neste contexto que a Saúde Baseada em Evidências (SBE) busca avaliar e reduzir incertezas na tomada de decisão dos profissionais desta área. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) cita a SBE como uma das grandes tendências da prática médica do século XXI, assim como a incorporação de tecnologias que permitam adquirir e pré-analisar as evidências de forma fidedigna, segura e com acuracidade(1). Seguindo essa premissa, entende-se que o desenvolvimento de uma solução baseada em eHealth (e-Saúde ou Saúde Digital) deve ser precedido de evidências claras(2). Ressalta-se que as dificuldades em incorporar soluções digitais na saúde, em nosso país, estão diretamente relacionadas à falta de execução das primeiras fases do ciclo de vida de um produto ou serviço. Por outro lado, a aplicação e a validação são etapas igualmente relevantes.

Neste contexto, cabe destacar o significado dos termos supracitados. O uso de tecnologias móveis na saúde ou mHealth (mobile Health ou Saúde móvel) é parte integrante do eHealth segundo a Organização Mundial da Saúde(3). Ambos os termos representam o uso dos recursos de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) em apoio à saúde. O mHealth contempla utilização de tecnologias móveis e sem fio, como telefones, smartphonessmartwatches, dispositivos de monitoramento de pacientes, assistentes pessoais digitais, especialmente os aplicativos de mobile softwares (APPs), para apoiar as atividades de saúde. O eHealth traduz o desenvolvimento e o uso de tecnologias computacionais avançadas voltados à saúde, como tecnologias web (clouding computing), dispositivos móveis, sensores, bioinformática, big data, genômica, inteligência artificial, biotelemetria, entre outros, incluindo laptopsdesktops, servidores, televisão e rádio, sistemas de teleconferência, etc.(45).

Tendo como exemplo os estudos tecnológicos sobre APPs em saúde, ressalta-se a sequência do ciclo de vida de um produto ou serviço. Geralmente, tem-se o seu início na fase de pesquisa básica, sendo as etapas subsequentes, substancialmente, necessárias, a saber: pesquisa aplicada; desenvolvimento; introdução; crescimento; maturidade; declínio. Na fase da pesquisa, quer básica ou aplicada, dificilmente se consegue definir prazos; os riscos técnicos são altos e a formação do conhecimento não é linear(6). Nesta perspectiva, é fundamental que o pesquisador, sobretudo no contexto acadêmico, adote metodologias de desenvolvimento para apoiar o processo de criação, evitando erros de validação da proposta de valor da solução. Em outras palavras, não basta criar somente um protótipo, é necessário validar o produto ou serviço (eficiência e eficácia) junto ao respectivo público-alvo. Entre os diversos métodos utilizados, pode-se ilustrar a condução dos processos de inovação através do IVPM2 – Iterative & Visual Project Management Method, traduzido como Método Iterativo e Visual para Gestão de Projetos. Baseia-se na aplicação dos princípios e práticas do gerenciamento ágil por uso das estruturas de apoio à gestão de projetos. Esse método possui cinco fases: 1. Visão. 2. Concepção. 3. Projeto detalhado. 4. Validação interna e externa. 5. Encerramento e Adoção da tecnologia(7).

A fase “Visão” determina as características da solução, o escopo do projeto, os stakeholders e a definição pela qual a equipe multidisciplinar (por exemplo, saúde e informática) deverá trabalhar e interagir. Nesta fase, realizam-se a validação da modelagem da solução baseada em entrevistas exploratórias não estruturadas e a criação dos fluxogramas baseados no levantamento de requisitos, bem como o levantamento dos protocolos de comunicação.

“Concepção” é a fase que define as entregas, que constrói o cronograma e o plano de iteração (processo pelo qual é realizada repetição de uma ou mais ações) de acordo com a “Visão”. São executadas análises e interpretações com vistas a definir o que é necessário construir e que tipo de conhecimento deve ser adquirido. Realiza-se o desenvolvimento da modelagem do sistema, incluindo os módulos de software e de banco de dados, de forma detalhada, com todos os procedimentos a serem elaborados para a plataforma tecnológica escolhida. Definem-se os padrões e indicadores de desempenho a serem utilizados pelo sistema, bem como a segurança dos dados. Por fim, identificam-se os indicadores que serão utilizados como parâmetro para verificar se a solução está adequada (exames clínicos, etc.).

Na fase “Projeto detalhado”, define-se por transferir os componentes do produto em ciclos de entregas reduzidos, minimizando riscos e incertezas. Pode-se aplicar o método scrum(8) (conjunto de atividades e executadas em determinado período), com sprints semanais. Neste período, é realizado o desenvolvimento do sistema, propriamente dito, incluindo a criação dos protocolos de comunicação, interface e funcionalidades do APP, plataforma cloud computing, algoritmos analíticos, etc. O objetivo é conduzir o sistema, em funcionamento, para iniciar a fase “Validação”.

“Validação interna e externa”, uma das etapas mais importantes, permite rever os resultados entregues, analisar a situação atual e o desempenho da equipe. Na validação interna, ocorrem os testes realizados pelo Quality Analyst e por um grupo de usuários voluntários do projeto (testes funcionais e operacionais). São realizados os testes de funcionalidades do sistema (bugs de tela, crash, comunicação, etc.), em seguida, são realizados testes operacionais (lógica e interpretação dos dados). Podem ser utilizados testes de caixa branca e caixa preta e de carga (volume de pessoas acessando o sistema, por exemplo). A validação externa compreende a escolha do grupo de usuários que irá participar dos testes pré-clínicos, isto é, aqueles que realmente vão se beneficiar da solução digital proposta, o público-alvo. Neste período, é realizado o acompanhamento das atividades de coleta de dados (fase transversal e longitudinal) para avaliação do desempenho do sistema. São realizadas adequações para alcançar a correta configuração (correção de falhas e melhoria no desempenho). Igualmente, são avaliados os indicadores utilizados como parâmetros para verificar se a solução digital atende ao propósito clínico.

Na fase “Encerramento e Adoção”, implanta-se o sistema. Deve-se treinar o profissional que irá operacionalizar a solução e finalizar o processo de interação junto aos usuários (usabilidade, estratégias de adoção, etc.). É exatamente nesta fase que são elaborados os estudos científicos a partir de resultados preliminares da fase pré-clínica (descrição detalhada da solução e documentação do piloto ou estudo de caso, entre outros). A publicação científica sobre o processo de criação e validação, incluindo todas as etapas, confere visibilidade ao produto ou serviço e, consequentemente, credibilidade aos pesquisadores.

Em um contexto econômico que exige controle rígido dos gastos públicos, configura-se relevante controlar a difusão de inovações em saúde. É por essa razão que a análise das tecnologias em saúde está sujeita ao interesse crescente, a nível nacional, por decisões de gerenciamento e aprovação(9). Desse modo, métodos científicos devem nortear futuros estudos e aplicações tecnológicas na saúde para que, evidentemente, façam sentido. Os recursos tecnológicos devem ser considerados a partir do momento que os problemas e necessidades precedem a ideia de criar um aplicativo móvel, não o contrário. Outrossim, é necessário combinar ferramentas ideais e um sistema integrado, para que a estratégia tecnológica favoreça, claramente, uma determinada população, de modo a agregar valor aos intervenientes, acesso ao mercado e interesse econômico viável. Ray et al.(10) ressaltam que “as melhores inovações estão focadas em necessidades não atendidas e não em soluções, […] buscam priorizar investimentos em pesquisa e desenvolvimento em áreas onde o maior impacto pode ser alcançado”.

Nesta perspectiva, os enfermeiros que atuam, sobretudo, no Sistema Único de Saúde, representam uma categoria de profissionais criativos para o uso de recursos tecnológicos que atendam às demandas da prática, haja vista o crescimento expressivo do número de estudos sobre tecnologia no país. As inovações incluem conceitos de novidade e mudança, porém é relevante considerar as evidências científicas que perpassam todos os momentos, desde a ideia à validação, na busca perene por qualidade da assistência e melhor desempenho na prestação dos serviços de saúde.

Antonio Valério Net, professor visitante em health data science e telemedicina na Escola Paulista de Medicina/UNIFESP e Maria Elisabeth Salvador, da Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina, Departamento de Informática em Saúde.

REFERENCES

1 Valerio Netto A, Petraroli AG. Modelagem de um sistema para o telemonitoramento de idosos com condição crônica baseado em biotelemetria. J Health Informat [Internet]. 2020[cited 2020 Aug 05];12(1):10-6. Available from: http://www.jhi-sbis.saude.ws/ojs-jhi/index.php/jhi-sbis/article/view/691 [ Links ]

2 Granja C, Janssen W, Johansen MA. Factors determining the success and failure of eHealth interventions: systematic review of the literature. J Med Internet Res. 2018;20(5):e10235. doi: 10.2196/10235 [ Links ]

3 World Health Organization-WHO. mHealth: use of mobile wireless technologies for public health. WHO-Technical Report[Internet]. 2016[cited 2020 Aug 05]. Available from: https://www.who.int/goe/publications/goe_mhealth_web.pdf [ Links ]

4 Valerio Netto A, Tateyama AGP. Tecnologia de telemonitoramento e biotelemetria para apoio a implantação do cuidado híbrido para o idoso com condição crônica. J Health Inform [Internet]. 2018[cited 2020 Aug 05];10(4):103-11. Available from: http://www.jhi-sbis.saude.ws/ojs-jhi/index.php/jhi-sbis/article/view/602 [ Links ]

5 World Health Organization-WHO. MHealth: use of appropriate digital technologies for public health Report by the Director-General. Seventy-First World Health Assembly[Internet]. 2018[cited 2020 Aug 05]. Available from: https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/WHA71/A71_20-en.pdf?ua=1 [ Links ]

6 Valerio Netto A. Proposta de um checklist para auxiliar na identificação de projetos de tecnologia e inovação oriundos do programa PIBITI do CNPq. Empreend, Rev Gestão Negócios [Internet]. 2020[cited 2020 Aug 05];9(1):170-87. Available from: http://fatece.edu.br/arquivos/arquivos%20revistas/empreendedorismo/volume9/Antonio%20Valerio%20Netto.pdf [ Links ]

7 Borba JCR, Trabasso LG, Pessoa MVP. Agile Management in Product Development. Res-Technol Manag. 2019;62(5):63-7. doi: /10.1080/08956308.2019.1638488 [ Links ]

8 Ardakani MRM, Hashemi, SM, Razzazi M. Adapting the scrum methodology for establishing the dynamic inter-organizational collaboration. J Org Chang Manag. 2018;31(4):852-66. doi: 10.1108/JOCM-07-2016-0135 [ Links ]

9 Dubromel A, Geffroy L, Aulagner G, Dussart C. Assessment and diffusion of medical innovations in France: an overview. J Mark Access Health Policy. 2018;6(1):1458575. doi: 10.1080/20016689.2018.1458575 [ Links ]

10 Ray PP, Amaral JF, Hinoul P. Innovation Best Practices in the Medical Device Industry. Tech Vasc Interv Radiol. 2017;20(2):90-3. doi: 10.1053/j.tvir.2017.04.004 [ Links ]

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